terça-feira, 1 de maio de 2012

O nascimento da Graziela - parte 2

Algum tempo depois a Carla chegou. Ela começou a massagear minha lombar, mas muito diferente do meu primeiro trabalho de parto, desta vez a massagem não aliviava a dor. Instintivamente, eu comecei a rebolar e parece que isto ajudava. Então não parei mais. Rebolava enquanto estava de pé, quando cansava, ficava de quatro apoiada na bola e fazendo movimentos de vai e vem, sempre com a lombar embaixo do chuveio.

Na minha lembrança eu reclamava muito da dor, a cada contração eu reclamava. E a reclamação ora vinha acompanhada de um xingamento, ora de um pedido a Nossa Senhora! A Carla sempre me falava algumas coisas, mas eu quase não conseguia ouvir. Já estava meio em transe e as lembranças são picadas.

Lembro de me sentir muito, mas muito cansada mesmo. Em algum momento pedi para sair do chuveiro e fui para o quarto. Fiquei no chão, no pé da cama, de quatro. Ainda rebolava. Como as massagens não estavam resolvendo, falei para a Carla que eu queria tentar passar por uma contração sozinha. E assim segui até o final.

A dor era realmente intensa, cheguei a vomitar. Lembro de estar colocando tudo pra fora e com o rabo do olho, percebi que alguém tinha chegado no quarto. Quando consegui olhar, vi que era a Kelly. Ainda comentei que o momento não era nada glamuroso, ela só me respondeu: " a gente dá um jeito". Fui para o banheiro de novo.



A parteira chegou à 01:01h.
Ela ouviu o coração da minha filha e disse que estava tudo bem. A bolsa ainda estava intacta. Algum tempo depois, falei que estava com muita vontade de fazer força, por sugestão dela, sentei no vaso! Fiquei algum tempo lá e ela ficou na minha frente, aparando para o caso da Grazi nascer. A noção de tempo nestes momentos fica realmente muito alterada. No meu pensamento, eu tinha ficado muito tempo no vaso. Eu me apoiava na parteira, a abraçava. Ela carinhosamente, retribuia o abraço.


Eu reclamava muito, da dor e do cansaço e perguntava se estava acabando. Ela então me disse que a cabecinha dela já estava ali, que se eu colocasse o dedo, sentiria. Neste momento tive mais uma contração. Esperei passar e coloquei o dedo. Senti a cabeça da minha filha ainda dentro de mim! Foi maravilhoso. Talvez por constatar, eu mesma, que realmente estava acabando.

Ela novamente sugeriu de irmos para o quarto. Sentei no mesmo lugar. No pé da cama.
Eu estava muito cansada. Queria deitar, queria descansar. Mas não conseguia. A única posição que eu conseguia ficar era de quatro. A parteira falou pra eu ficar de cocóras, sustentada pelo meu marido. Tentei, mas achei ruim.


Assumi a posição de quatro que era o que o meu corpo pedia!
Senti um puxo e fiz muita força. Comecei a sentir o tão falado círculo de fogo. Queimava, ardia. A sensação que eu tive, era de que eu iria partir ao meio. No meu plano de parto, eu pedi para ver quando ela estivesse coroando e nesta hora, elas colocaram um espelho para que eu pudesse acompanhar a descida da Grazi.



Olhei, mas mal conseguia enxergar. E o pouco que vi, nao gostei muito. Mesmo assim, ainda olhei mais umas duas vezes. Tive mais um ou dois puxos e no último, a parteira disse que a bolsa ainda não tinha rompido e que ela nasceria dentro da bolsa. Quando senti este último puxo, já não estava mais aguentando e usei toda a energia que me restava para fazer força e expulsá-la de uma vez. E ela nasceu!! À 1:29h da manhã do dia 09-04. Toda empelicada, como elas disseram, envolta na bolsa, protegida!

A parteira a aparou e a "desembrulhou". Ela ficou alguns segundos no chão. Eu não conseguia fazer outra coisa, senão chorar e sorrir. Instintivamente, olhei para trás, para onde a minha mãe estava, no cantinho do quarto, com as mãos unidas, rezando, agradecendo.

A Grazi foi colocada no meu colo. Tão quentinha e ainda molhada e escorregadia.
Sensação única e indescritível.



Não nos desgrudamos mais. Eu a cheirava, a limpava, a aquecia, a beijava. Quis que o mundo parasse naqueles minutos.



Ainda no chão, dei o peito e ela pegou de primeira, com jeito de bebê experiente.

Quando me levaram para a cama, consegui segurar o cordão que ainda estava pulsando.
Pari a placenta quase meia hora depois que a Graziela nasceu e quase uma hora depois o cordão foi cortado pela minha mãe!
Tive uma laceração de segundo grau (envolvendo pele e músculo) e precisei de alguns pontos, mas a aparência geral da região, mesmo com laceração e pontos em nada se compara a aparência de uma episiotomia. A recuperação também foi bem mais rápida: em uma semana já não sentia mais nenhum incomodo ou dor!

A Graziela ficou no meu colo, mamando enquanto a parteira dava os pontos.



Depois fui tomar um banho (devidamente "monitorada" pela parteira) e só então a Grazi foi medida e pesada pela neonatologista: 2890g e 47cm Ela tomou vitamina K via oral, não precisou ser aspirada, não foi esfregada para ser limpa, nada disto. Recebeu apenas carinho e amor!

A neonatologista "avaliando" a minha pequena!


Todos foram embora por volta das 4:00h da manhã.

A noite teria sido perfeita (inclusive eu desejava que ela nascesse durante a madrugada, assim como foi com o Gustavo) não fosse a minha idéia estapafúrdia de ir ao banheiro sozinha. Fiz xixi no vaso e estava me sentindo ótima, então resolvi me lavar no chuveiro em vez de usar papel higiênico. Fiquei só com a blusa do pijama e entrei no chuveiro. Comecei a me lavar e em poucos segundos senti que estava perdendo os sentidos. Chamei pelo Carlos (mas só Deus sabe qual a altura da minha voz neste momento, provavelmente um sussuro) e apaguei. Acordei sentindo a blusa molhada, o cabelo pingando e pensei que tinha sonhado. Não me lembro da minha mãe e do Carlos que a esta altura já estavam comigo no banheiro. Segundo eles, eu disse apenas que bati a cabeça e apesar de muito pálida, parecia meio lúcida, mas não queria levantar do chão. Por algum motivo ainda desconhecido, o Carlos saiu do banheiro e me deixou sozinha com a minha mãe. Desmaiei de novo e minha mãe tentando segurar todo o peso de um corpo largado, gritou pelo Carlos. Quando acordei de novo, ele estava tentando me levantar para me levar para a cama.

Fiquei com um galo enorme na testa e um ralado na bochecha e em resumo, dormi com mais dor na cabeça do que na periquita (e olha que ela estava dolorida, viu...)

Minha mãe dormiu no quarto do Gustavo com ele e nos contou que ao acordar, ainda sem saber de nada, antes de vir para o meu quarto, como ele sempre faz, ele entrou no quarto da Graziela, ficou um bom tempo olhando para as letras na parede (que ele me ajudou a fazer) e que foram colocadas no domingo de manhã e disse "tá bonito"!


Em seguida perguntou "cadê a mamãe?" e só então veio para o meu quarto.
Ele viu a Graziela no carrinho e disse que era um nenê. Eu falei que era a irmãzinha dele, mas ele insistiu que era "um nenê" e que a Graziela estava na minha barriga (que aos olhos de uma criança, deveria estar praticamente do mesmo tamanho que no dia anterior).
No entanto ele pediu para segurá-la!

E assim começou nosso dia:




Como disse a Lia no relato de parto da Margarida, parindo em casa a gente pode sentir a continuidade da vida, já que não existe quebra de rotina. "Não saímos do nosso ninho, não há grandes produções, grandes resguardos. Simplesmente o sol nasce e há mais uma criança em casa".

Bom demais!
Bonito demais!

16 comentários:

Paloma, a mãe disse...

Lindo, Fabi!! Me emocionei demais.
Li a primeira parte e não consegui comentar, mas se vc vir nos dados do blog uma leitora da croácia, sou eu ;)
Beijo enorme

Amor de Mãe disse...

Nossa que determinação, parabéns! Fiquei preocupada com os desmaios... Mas sei que estão bem, que seja muito abençoada a Grazi, bjo grande.

Kelly Resende disse...

Fabiana, que emocionante! Admiro muito a coragem de vcs, e vendo a tranquilidade da Graziela percebo o quanto é melhor pra eles um nascimento assim. Falando em Graziela, ela é linda, parabéns!
Beijos

Cíntia Anira disse...

Que lindo relato Fabi. Fiquei intrigada com o desmaio. Ai que medo! Eu tive episio e sentei um mês de ladinho. Dói muito!

Parabéns! Muitas felicidades para vocês.

beijo

Ana Claudia disse...

Lindo e emocionante relato Fabi...
Parabéns pela força, determinação e família linda!!!

A Grazi é uma fofa...

bj

Juliana Contezini disse...

Que coisa mais linda,emocionante !!! Parabéns pela nenê e muitas Felicidades !!!
E que RN mais charmosa !!!

Lia disse...

Ela é LINDA como o Gu!!! Linda, linda!! Nossa, Fabi, como você faz filhos bonitos!!
Sabe, fico impressionada como é relativamente comum bebês nascerem empelicados em partos domiciliares. Por que será? Eu voto que essa tocação toda em um TP tradicional acaba rompendo a bolsa.
Gostei da expressão "desembrulhar". Acho que é isso mesmo: romper a bolsa artificialmente é abrir o presente antes da hora.
Parabéns, e muitas felicidades nessa jornada de mãe de dois!
(ai que saudade do meu parto... vontade de engravidar djá! - não fosse a nova bronquiolite de Margarida... ai, ai)

Anna disse...

Fabi,

me emocionei com seu relato. Que graça Divina parir assim.

Beijos

Sarah disse...

Fabi, que emocionante! Cheguei e já li as 2 partes de uma vez, eba! Demais, adorei acompanhar, adorei as fotos... E sabendo que Graziela chegou de madrugada, tenho mais certeza ainda do meu sonho com vc naquele dia!!
E linda tb a foto do encontro dos filhotes!!
Parabéns querida!
bjos

Fabi disse...

Fabi estava aguardando ansiosa por esse relato, lindo amiga, maravilhoso, chorei muito e to chorando agora lembrando do meu, não tem o que dizer dói mas é a melhor coisa do mundo... Te admiro mais ainda, guerreira mesmo... Ah Fabi, agente acha que ta ótima, da uma adrenalina mas depois baixa e tudo gira, eu fiquei exausta depois... Saúde, saúde, saúde família linda e abençoada por Deus! Bj e abraço forte forte!!!

Roberta Lippi disse...

Que lindo, que lindo, que lindo!!! Parabéns, Fabi! Li ontem seu primeiro relato e fiquei aqui esperando o desfecho. Que bom que você conseguiu ter o parto que queria, da forma como queria (no seu caso o imprevisto foi o desmaio, no da Lia foi a polícia... rsrsrs acho que sempre vai ter alguma coisa inesperada, né?)
Muita saúde pra Graziela e que os dois sejam muito companheiros. Você vai ver como é bom demais.
Beijo bem grande pra você!!

Bia disse...

Nossa, que emocionante! Li assim que você postou, e fiz questão de voltar só para te parabenizar pela força e pela linda família :) Que a Graziela seja muito bem vinda, adorei ver a foto dela e do Gustavo juntos:)
O que eu mais gostei de ler no teu relato foi a tua visão realista e natural de tudo, me senti parte dessa linda história, como se eu tivesse tido a honra de estar junto com vocês. E deve ser muito lindo acordar pela manhã com um novo bebê em casa, simples assim...
Deus abençoe vocês
beijos

Flávia disse...

Estou cada vez mais encantada com o parto domiciliar. Sãos histórias lindas como a sua e a da Lia. Experiencia abençoada! Parabéns por essa filhota linda. bj

Flávia disse...

Estou cada vez mais encantada com o parto domiciliar. Sãos histórias lindas como a sua e a da Lia. Experiencia abençoada! Parabéns por essa filhota linda. bj

Carla Arruda disse...

Só vi agora que vc colocou o depoimento!!!
LINDO< LINDO!
Amo vcs!

Renata disse...

FABIII, fiquei muito emocionada!!! Que essa gatinha traga ainda mais alegria pra essa família linda.
O que é essa última fotoooo? Morri!
beijo

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